“É preciso repensar a sala de aula”, defende Silvio Meira

Em entrevista à Assessoria de Comunicação e Marketing da PUCRS, Silvio Meire, professor associado da escola de direito da FGV-RIO e co-criador e agente provocador de uma das primeiras redes de business designers do brasil, a Ikewai.com, fala sobre a importância de inovar a educação e acabar de uma vez por todas com os velhos conceitos de aprendizagem. “Inovar no sistema educacional é mudar o comportamento das pessoas que se acham especialistas em mudar o comportamento de ‘outras’ pessoas, os alunos”, argumenta. Confira a entrevista, na íntegra:

Por que a inovação na educação é fundamental para o futuro do país, da sua democracia e da sociedade?

Parafraseando uma definição de Peter Drucker, pode-se dizer que inovação é a mudança de comportamento de agentes, em um dado contexto, como participantes de qualquer ação. Se o contexto é a sociedade, sabemos que ela está mudando. Se são os mercados, idem. Se são as profissões, elas mudaram muito mais nos últimos 50 anos do que nos 200 anos anteriores. E mudarão mais nos próximos 25 do que mudaram nos últimos 100, 200. Inovação é mudança real, que tem impacto e afeta a vida das pessoas. Tudo, ao redor da educação, em todos os níveis, está mudando muito, e muito rapidamente. Se a educação não mudar, se os comportamentos associados ao processo educacional não mudarem, todas as instituições, estruturas e organizações, métodos, processos e conteúdos educacionais que conhecemos se tornarão irrelevantes, porque deixarão de atender a demanda do seu contexto. Ultrapassadas, obsoletas, elas serão substituídas por outras formas e locais de aprendizado. Ao contrário do que muitos, mesmo dentro do ambiente educacional, pensam e professam, o essencial no processo educacional não é o ensino, mas o aprendizado. Se eu puder aprender fora do sistema, de forma mais eficaz e eficiente, por que iria perder meu tempo com o sistema?

É possível inovar em sala de aula sem recorrer às tecnologias?

É preciso repensar a sala de aula. Talvez até acabar com a sala e a aula. Já há um número de escolas assim, onde a sala e a aula foram trocadas por ambientes de aprendizado baseado em problemas, muitos deles reais e concretos. Um exemplo é o Olin College: em uma disciplina de produtos e mercados, os aprendizes têm que conceber, criar, operar e gerenciar um negócio real, lucrativo, no mercado. Em outra, times multidisciplinares de aprendizes constroem sistemas que eles escolhem para entender os princípios da engenharia. Tudo na prática. Sem ficar numa sala de aula com um instrutor projetando slides que versam sobre textos de livros que eles poderiam ter lido antes, para discutir, debater e aplicar em um projeto no laboratório. Nenhuma dessas inovações recorre a tecnologias especiais, mas a uma mudança radical no comportamento dos agentes envolvidos, tanto dos professores quanto dos aprendizes. O principal problema a ser resolvido no processo de aprendizado é o engajamento dos alunos. Uma pesquisa feita nos Estados Unidos com mais de 900 mil alunos das escolas K-12 (ensino fundamental e médio, Gallup, 2015) mostra que 23% dos alunos acham que estão fazendo, na escola, o que sabem fazer melhor; só 28% acham que a escola é divertida e apenas 34% dos alunos se sentem engajados com a escola no fim do ensino médio, contra 75% na metade do ensino fundamental. Há algo essencialmente errado na escola como ela existe hoje. À medida que o tempo passa, os alunos, que deveriam estar cada vez mais envolvidos no processo de aprendizado, estão cada vez mais distantes dele. Os resultados estão aí, nas avaliações do sistema de ensino público e privado. E não será a introdução de novas tecnologias, ou a injeção de mais recursos físicos ou financeiros, que vai mudar esse status quo. É preciso inovar de verdade, é preciso rever as bases sobre as quais o sistema educacional está assentado, é preciso centrar o sistema no aprendiz, para que os resultados fluam para a sociedade como um todo.

Se nem todo o uso de tecnologia em sala de aula quer dizer inovação, então de que forma a tecnologia pode realmente ajudar a inovar na educação?

Tecnologia pode ter um papel fundamental quando tiver um propósito dentro ou como parte de um conjunto de métodos e processos de um sistema. Imagine um laboratório de química numa escola onde nem os instrutores sabem para que usá-lo do processo de aprendizado. Qual seria sua utilidade? Soltar os alunos no laboratório, misturando coisas, para ver o que aconteceria, até que alguém descobrisse alguma coisa útil ou causasse um incêndio? Agora imagine a Wikipedia (com algum software adicional por trás), como parte de um processo de aprendizado de história: que tal descobrir qual foi a relevância de R, no episódio E, dando no máximo C clicks a partir da página P? Aí tem tecnologia, propósito, método e processo, e é completamente diferente de pedir para os alunos encontrarem a resposta na web. O último método é uma busca sem qualquer consideração, o Google resolve para o aluno. O primeiro é um desafio, tem contexto e limites, ponto de partida, envolve reflexão e aprendizado verdadeiro. A tecnologia realmente pode ajudar no processo educacional se for usada para criar engajamento, participação, criatividade e aprendizado verdadeiro, e não habilidade no uso das ferramentas pura e simplesmente. Afinal, do ponto de vista de tecnologias da informação e comunicação, elas mudam tão rapidamente que você nunca sabe mesmo usá-las, está sempre aprendendo.

Que tipo de inovação na educação superior é capaz de mudar o sistema educacional?

A educação superior oferece, ao mesmo tempo, muito mais e muito menos formas de inovar. Mais porque trata de aprendizes mais experientes - pelo menos em tese - no processo de aprendizado. Menos porque a vasta maioria dos professores do ensino superior tem muito pouca experiência prática nas duas coisas que mais interessam aos alunos. Primeiro, os docentes não são especialistas na criação de oportunidades de engajamento no processo de aprendizado e, sim, num certo domínio do conhecimento. Segundo, considerando que o ensino superior é o último estágio de aprendizado formal dos alunos antes do mercado, o docente clássico, de sala de aula, não tem a experiência prática de mercado que cativaria seus alunos. Resultado? Na maioria dos casos, os alunos se tornam autodidatas na teoria e aprendem a prática no mercado. E as escolas superiores, quase todas, não estão conseguindo mudar esse estado de coisas. Aí é onde volto ao exemplo do Olin College e de escolas, no Brasil, que estão seguindo esse modelo, como a Faculdade Pernambucana de Saúde e o Insper. Essas novas escolas são comunidades de aprendizado - e não de ensino - centradas no aluno e no contexto da vida real, fora da escola. No dia em que mudarmos a estrutura do ensino superior de disciplinas isoladas e do mundo ao redor e passarmos a ter, em larga escala, um aprendizado em contexto, e contínuo, por e para toda a vida, vamos mudar o mundo.

A educação no Brasil tem algum exemplo de inovação de alto impacto?

Infelizmente, ainda não. Alto impacto seria dizer que já medimos o resultado, na sociedade e economia, por anos, talvez décadas, e vimos uma mudança significativa entre o que era uma escola ou sistema educacional antes e o que é agora. Ou seja, não é só mudar e ganhar um prêmio de melhor experiência aqui e ali, mas manter-se no rumo e com performance muito acima da média por muito tempo. Inovação, assim como educação, é, principalmente, execução. De qualidade. No caso de educação, em alta quantidade, em escala social. Nós estamos a décadas de muita mudança, investimento, engajamento e dedicação para sairmos dos últimos lugares mundiais no ensino pré-universitário e alcançarmos alguma posição confortável. De que adianta ser uma das dez maiores economias do planeta e ao mesmo tempo ser uma das sociedades menos educadas, menos cultas, mais desiguais, mais violentas? O sistema educacional é o principal mecanismo de replicação ou de inovação da cultura e, por tal via, da própria sociedade. Olhando para o que vem acontecendo no Brasil nos últimos 50 anos, é claro que o sistema educacional precisa fazer muito mais e melhor do que está fazendo, até para a gente deixar de ver aquela velha manchete dos tempos de ENEM: “pobre, filho de lavadeira, estudante de escola pública, passa em medicina em uma universidade federal ou estadual de boa qualidade”. Essa deveria ser a norma, a depender única e exclusivamente da dedicação dos alunos do ensino médio, se houvesse oportunidades iguais para todos desde os primeiros anos da educação básica.

Mudanças dessa ordem não afetariam a forma de organização, estrutura, regras e princípios do sistema de educação?

Sim, completamente. Exatamente por isso que tanta gente duvida que elas venham a acontecer. E é por isso mesmo que, quase certamente, elas acontecerão fora do sistema educacional clássico. Note que a internet não surgiu nos Correios e Telégrafos e que até hoje subsiste, no Brasil, um serviço de telegramas nos Correios. Ninguém sabe por quê. Na Índia, país com uma cobertura de internet e celular muito menor do que a do Brasil e onde o telegrama começou a funcionar alguns anos antes do nosso, o serviço foi encerrado definitivamente em 2013. Se aqui no Brasil é muito difícil começar a fazer qualquer coisa nova, é quase impossível parar de fazer algo que não tem mais finalidade. Como se não bastasse, há um grande número de teorias, polarizadas por todos os tipos de visões entendimento da sociedade, da cultura e até da natureza, a maior parte delas sem qualquer comprovação prática, sobre o que deve ser o sistema educacional. Não o do futuro, mas o de hoje. É assustador que em um bom número de estados norte-americanos o dinheiro público ainda seja usado para financiar escolas que não ensinam teorias científicas comprovadas há mais de um século e insistem em mitos da criação. Isso para dar só um exemplo. Não é fácil mudar o sistema educacional de um país. Nem é fácil mudar o arranjo educacional de um curso de graduação. Educação muda as pessoas. Inovação é mudar o comportamento das pessoas. Inovar no sistema educacional é mudar o comportamento das pessoas que se acham especialistas em mudar o comportamento de “outras” pessoas, os alunos E quase a totalidade delas não está pensando em ter o seu comportamento modificado.