“Nossos adolescentes precisam de ferramentas para lidar com o mundo”, diz pesquisadora

No blog Professores, da SOMOS Educação, um dos maiores grupos de educação do mundo, Letícia Guimarães Lyle, pesquisadora da área da educação, fala sobre a importância de trabalhar competências socioemocionais em adolescentes. Confira, na íntegra:

O livro “Os 13 porquês”, que deu origem à série homônima da Netflix, traz à tona diversas discussões a respeito das razões que levam Hannah, a protagonista, a cometer suicídio. Este artigo foca em uma delas: o bullying na adolescência. Sem entrar no mérito do programa, vale aproveitarmos a chance para pensar não só no que podemos fazer a fim de evitar que situações repetitivas e comuns na vida dos adolescentes não produzam efeitos indesejáveis no longo prazo como, principalmente, sobre como podemos instrumentalizá-los para lidar com esses desafios.

Esses mesmos desafios que adolescentes enfrentam atualmente já fizeram parte da minha própria adolescência: os conflitos provenientes da transformação para a vida adulta, a exacerbação da individualidade, o desenvolvimento da autoestima. Eu fui uma menina alta, desengonçada, com aparelho nos dentes, que usava cabelo no rosto e calça caída para disfarçar o tamanho das pernas. Quanto mais eu conseguisse esconder o que me desagradava e era alvo de críticas, melhor. Se já me sentia estranha no meu pequeno mundo, imagine se esse meu estranhamento fosse registrado e publicado em uma rede social, ou comentado em um Snapchat entre amigos, ou, ainda, jogado no grupo de mensagens da sala de aula, para todo mundo ver, comentar e dar risada? Imaginem não poder rasgar um bilhete mal escrito ou uma foto de que não gostamos? Ou não conseguir voltar atrás em algo que dissemos, não conseguir reparar a exposição dos altos e baixos de nossos relacionamentos, não controlar o que acontece com a nossa própria imagem.

Mais do que nunca, nossos adolescentes precisam de ferramentas para lidar com o mundo, especificamente na fase em que vivem. Há seis anos eu estudo o desenvolvimento de competências socioemocionais e trabalho com isso. Já criei programas em escolas públicas e privadas, projetos de formação de professores, adaptei currículos e materiais didáticos, e cada uma dessas experiências evidenciou a importância dessas competências e do quanto são essenciais para o processo de ensino e aprendizagem – e para o desenvolvimento humano de pais, responsáveis, professores e alunos.

Quando falamos sobre competências socioemocionais, delimitamos um conjunto de ações, habilidades, comportamentos e valores que norteiam a maneira pela qual o indivíduo se relaciona consigo mesmo, com as pessoas e com o mundo a sua volta. Uma série de estudos e experiências no Brasil e em outros países demonstram os benefícios do trabalho com essas competências, e revelam apoiar tanto o desenvolvimento de competências cognitivas como a forma com a qual o aluno se relaciona com a informação e com o conhecimento.  Modelos educacionais de todo o mundo, dentre eles os da Finlândia, Austrália e Cingapura, estão voltando seus esforços para garantir nas escolas esse trabalho com aprendizagem socioemocional.

Não há um consenso sobre quais exatamente são essas competências; porém, dois dos referenciais mais conhecidos e utilizados — o Big Five Factors (Cinco Grandes Fatores da Personalidade) e o CASEL (Collaborative for Academic, Social and Emotional Learning) — apresentam maneiras muito similares de entendê-las. Enquanto o Big Five descreve cinco grandes domínios — Abertura a novas experiências, Conscenciosidade, Extroversão, Amabilidade e Neuroticismo —, o CASEL busca garantir que certas competências sejam trabalhadas na vida de todas as crianças por meio de cinco componentes da aprendizagem socioemocional: autoconhecimento, autorregulação, sociabilidade, competências de relacionamento e, por último, tomada de decisões responsáveis.

Na definição de Maurice Elias, a aprendizagem socioemocional é o processo pelo qual um indivíduo adquire as competências centrais para estabelecer e atingir objetivos positivos; apreciar a perspectiva dos outros; estabelecer e manter relações positivas; reconhecer e manejar suas emoções; tomar decisões responsáveis; e lidar com situações interpessoais de maneira construtiva” (Elias et al., 1997). No Brasil, o Instituto Ayrton Senna lidera um grupo de estudos chamado Edulab21, com pesquisadores brasileiros da USP, USF, Insper, Universidade de Gent, na Bélgica, e Universidade de Berkley, na Califórnia, que busca desenvolver instrumentos para a avaliação dessas competências em escolas. Na sua primeira versão, o instrumento criado por eles, Senna 1.0, conseguiu apontar correlações entre vulnerabilidade e violência e competências socioemocionais.

Programas como Compasso Socioemocional, Amigos do Zippy, O Líder em Mim, Friends, Projeto Cuca Legal, entre outros, desenvolvem essas competências de maneiras explícitas em ambientes escolares de escolas públicas e particulares de todo o Brasil. A importância de trabalhar as competências socioemocionais com os alunos ficou evidente também no Academic Festival do Teachers College, a Faculdade de Educação da Universidade de Columbia, nos EUA, do qual recentemente participei. Uma das atrações principais do evento foi a Cynthia Bissett-Germanotta, mãe de nada mais nada menos do que Lady Gaga. Junto da filha, Cynthiaé cofundadora da Born This Way Foundation (BRWF), uma organização que investe em pesquisas e programas tanto de prevenção do bullying quanto da valorização da diversidade de crianças e adolescentes pelo mundo.

Falando sobre seu projeto, e contando a história de suas filhas, que durante a adolescência, por serem diferentes, sofreram bullying, Cynthia apontou as competências socioemocionais das filhas como o grande fator que as ajudou a sair de situações difíceis: A BTWF apoia e desenvolve projetos com a Universidade de Yale e com outras instituições de pesquisa que buscam comprovar a necessidade de trabalhar letramento emocional e inteligência emocional nas crianças desde pequenas. Outras organizações, como o Committee for Children, evidenciam uma visão pragmática sobre como trabalhar com o tema para entender e prevenir o bullying nas escolas. Para tanto, é necessário: reconhecer o bullying (ações deliberadas de agressões físicas e/ou verbais que acontecem repetidamente e configuram uma situação de poder entre quem sofre e quem faz a agressão); recusar o bullying (não deixar que a agressão se efetive, não rir, não encorajar comportamentos agressivos e assumir uma postura proativa para que isso pare); e reportar a um adulto de confiança ao se perceber como alvo de bullying ou ao conhecer alguém que seja.

O trabalho com adolescentes também é foco do programa de mentalidade de crescimento (Growth Mindset), desenvolvido sob os cuidados de Carol Dweck, na Universidade de Stanford. O conceito de Mentalidade de Crescimento nasceu da pesquisa de Dweck sobre a importância de trabalhar com adolescentes a percepção que eles mesmos têm sobre a própria inteligência e ajudá-los a entender “desafio” como uma palavra positiva e “esforço” como o grande vetor da sua história escolar. No site do Project for Education Research that Scales — PERTS, programa da Universidade de Stanford para desenvolver soluções de impacto em larga escala, professores e gestores escolares podem aprender a trabalhar conceitos que promovem a aprendizagem socioemocional de adolescentes e crianças.

Mas como esse trabalho acontece na prática? Dou um exemplo. Há um mês implantei um projeto com alunos do 3.° ano do Ensino Médio de uma escola pública de São Paulo. Parte de uma iniciativa para que colaboradores da Somos Educação vivenciem o cotidiano escolar e os desafios de professores, o programa propõe aulas de cursinho todos os dias no período da tarde. Sugeri que fosse realizado um breve curso de sensibilização socioemocional que acompanhasse a grade tradicional e focasse em introduzir o trabalho com competências, para que se estabelecesse um ambiente de troca e confiança entre os alunos participantes e se iniciasse um processo de autoconhecimento.

Nosso primeiro encontro foi muito especial. Os alunos, muitos deles bastante emocionados, revelaram a dificuldade que tinham em confiar nos colegas por medo de serem expostos e por serem — e se sentirem — diferentes. Depois de um exercício de reflexão e uma troca de experiências entre eles, descobriram quantas questões influenciavam o dia a dia na escola, como a autoestima dos colegas também estava balançada e como todos achavam difícil descrever e apontar as próprias belezas e facilidades. Bullying, solidão, depressão e baixa autoestima fazem parte do dia a dia do adolescente na escola e, muitas vezes, eles não têm espaço, e principalmente ferramentas, para lidar com isso.

Um aluno me perguntou genuinamente se podíamos mesmo aprender a trabalhar com nossos sentimentos: “A gente consegue mesmo melhorar como a gente se sente?”. Sim,  conseguimos. Essa é a base de toda a aprendizagem socioemocional. A verdade é que muitos desses alunos não estão encontrando espaço nem em casa, nem na escola para desenvolver essas competências, e muitos estão desamparados nesse momento tão complexo de suas vidas. Há uma centena de razões para que a aprendizagem socioemocional faça parte da vida desses adolescentes. Meu convite é para que utilizemos a discussão sobre Os 13 Porquês para destacar os trabalhos que vêm sendo realizados no Brasil e no mundo, lançando essa reflexão para o centro da prática pedagógica nas escolas. Todos os nossos jovens merecem desenvolver a empatia, a liderança, a cidadania, o fortalecimento da autoestima, a solidariedade e tantas outras competências para serem capazes de mudar o seu próprio mundo.

Nós precisamos buscar maneiras de garantir que nossos adolescentes possam se desenvolver com segurança, e espaço para crescer. Já são muitas as soluções disponíveis e evidências sobre os efeitos positivos do trabalho com as competências socioemocionais em variados formatos. Escolha um, invente um, faça o teste – esse desafio é de todos nós.

 

Referências:

Durlak, J. A. et al. The impact of enhancing students’ social and emotional learning: a meta-analysis of school-based universal interventions. Child Development, jan.-fev. 2011, v. 82, n. 1, pp. 405-432.

Dweck, C. S. (2007). The Perils and Promises of Praise. Early Intervention at Every Ag, 65 (2), pp. 34-39.

Elias, M. J.; Zins, J. E.; Weissberg, R. P.; Frey, K. S.; Greenberg, M. T.; Haynes, N. M. et al. (1997). Promoting social and emotional learning: Guidelines for educators. Alexandria, VA: Association for Supervision and Curriculum Development.

Kokkinos, C. M; Kipritsi, E. (2012). The relationship between bullying, victimization, trait emotional intelligence, self-efficacy and empathy among preadolescents. Social Psychology of Education, 15 (1), pp. 41–58.

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Soto, C. J.; John, O. P. (2016). The Next Big Five Inventory (BFI-2): Developing and Assessing a Hierarchical Model With 15 Facets to Enhance Bandwidth, Fidelity, and Predictive Power.  Journal of Personality and Social Psychology,  DOI: 10.1037/pspp0000096.

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