Dia 1 #SagradaFamília, por Amanda


Chegar na Sagrada Família não foi uma viagem comum.
Partiríamos de Belém no dia 04/07 às 17h, em um barco-dormitório-de-redes. Ao entrar nele, a equipe se mobilizou para encontrar um local para nossos materiais e para montar nossas redes. Eu pessoalmente dividi meu cantinho com mais 3 pessoas da equipe, 3 desconhecidos, e uma caixa cheia de pintinhos que piavam e soltavam um cheiro no mínimo incômodo.

O barco atrasou, e acabou saindo depois das 18h. A viagem começou a dar o tom do que encontraríamos mais tarde: pessoas receptivas nos ajudando a montar redes, muita água e beleza natural, e uma mudança de chave que aproximou ainda mais nossa equipe.

10 dias em Curralinho - PA, por Amanda

No meio da viagem, a Expedição MundoMaker resolveu encarar uma missão diferente: trabalhar uma semana em uma comunidade chamada Sagrada Família, no rio Canaticu, município de Curralinho, no Pará. O trabalho, apesar de contar com o apoio da filosofia e ferramentas maker, e de ser formatado de acordo com o ideal da aprendizagem criativa, era um novo desafio: ficar uma semana inteira com o mesmo grupo de pessoas, prototipando soluções para os problemas locais.

Quem nos apoiou neste projeto foi o Instituto Peabiru, que há anos trabalha no local. Com base nas pesquisas que eles fizeram, decidimos tratar do que é a atividade profissional da maior parte dos moradores da região, o extrativismo de açai. A ideia era aprender com eles sobre o processo, visitando as áreas de trabalho e tentando nós mesmos realizar suas atividades, e depois ajudá-los em um processo de construção de soluções em grupo.
Os resultados que alcançamos foram muito maiores do que imaginávamos. E relataremos cada um dos dias de viagem nas próximas publicações do blog.

Acompanhe!

My story within MundoMaker begins a little after New Years. I don’t remember the exact scene, but I was likely sitting, drinking coffee at the beach, and trolling LinkedIn for a potential job opening somewhere on the West Coast. The invitation came from a simple phone call; a close family friend told me about some sort of education-based road trip around Brazil. She had been contacted to help idealize the project and thought that maybe it would interest me.  My heart and mind where set, I was going to the US, but as a life mentor once off-handedly told me, you should always go and listen, you have nothing to loose.

I’m sitting in a van, a fifteen passenger. We are on our way to Goiania, GO. Our pink and green workshop-van races ahead. We are 12 strong, little short of strangers, each of us with our own crazy train of events that got us here. I sit here, and trace back the process that got me here—an interesting conglomeration of events and circumstances (those that we call life).

 

I’m sitting in a van, a fifteen passenger. We are on our way to Goiania, GO. Our pink and green workshop-van races ahead. We are 12 strong, little short of strangers, each of us with our own crazy train of events that got us here. I sit here, and trace back the process that got me here—an interesting conglomeration of events and circumstances (those that we call life).

 

As a multi-cultural, travel-loving, twenty-four year-old with a slight tendency for work addiction, this gig fit the bill in ways. I’ll admit, more than the overall mission of education, I was drawn to the project for the challenge. I’m a project minded person. Once I have a project, I can’t stop until it’s solved. And so, the expedition became the next big project. Idealize, plan for, and put in action. “Make it happen” – that was my mission from the start.

I rearrange my sit bones, which are squared due to my position against the tiled floor-wall connection. I look up from the florescent screen to a funny scene: my feet stretched in front of me, a bunch of cables, a collection of adaptors, a printer and a phone attempting to provide a hotspot. It’s 9:45 pm on a Sunday and I’m in an elementary school in Carolina, Maranhão –my office for the night.

 

I jumped straight into the job, and began researching, fundraising, and planning. Google maps, Google Earth, search engines in general, e-mail, WhatsaApp, Facebook, phone calls, a bottom-less coffee mug and 5 different colored pens – not to mention the generously equipped FabLab that is MundoMaker located in São Paulo, a city of 20 million– we had all the tools and more right at our finger tips. 

The pin is dropped, km 13, where we are supposed to stop. Strange… that’s not really an address. I try to contact our local ambassadors, but no one answers. The 15-passenger van is behind us, following us, depending on our GPS to arrive at our next destination.  We decide to follow the pin, the answer will present itself. As we approach km 13, we see them. More than 30 people by the side of the road on the outskirts of Belém, waving banners and jumping up and down. They are singing and cheering. Welcome to Belém, MundoMaker.

 

None of us really foresaw the dimension this expedition would take, but the timing seemed like fate. Simultaneous to our planning, Brazil was (and still is) experiencing an intense political turbulence. While I do not care much for political debate, as I find them to be often divisionary and counter-productive, I do believe that what unfolded (and continues to unfold) in the beginning of 2016 played an interesting role in my involvement in the expedition. It became astoundingly clear to me that what Brazil truly needs is educational reform. It was when I realized the unifying strength in education. That regardless what circle I spoke to, regardless of faith, regardless of geographical or historical background, all can agree that education is important. Moreover, investing in youth is what fuels change.

Amigo C, por Orlando

Ele chegou mais para o final da tarde, quando as atividades já haviam começado. Deve ter entre vinte e trinta anos de idade. Aproximou-se meio tímido. Talvez por que a maioria do público que estava na atividade fosse bem mais jovem. Crianças, na verdade. Fui logo recebê-lo para convidá-lo para a atividade. Eu realmente não sei o seu nome, pois nesse momento minha atenção estava no desenrolar das 7 atividades simultâneas que estavam acontecendo na quadra. Estávamos num espaço coberto porém sem paredes. Era no meio de um grande pátio de uma escola na cidade de Carolina, Maranhão. Fazia um calor maranhense do lado de fora.

Fiz então, uma tentativa de aproximação dele com a atividade de impressão 3D e cortadora laser, por achar que alguém mais velho se interessaria por assuntos mais técnicos. Eu mesmo sempre me admiro com aquela máquina de impressão 3D funcionando. É muito impressionante. Uma máquina que constrói um objeto físico na sua frente, a partir de um filamento de plástico derretido e um desenho virtual. Bom, eu ainda não me acostumei comisso. É incrível. Você faz um desenho no computador e a máquina transforma em objeto físico.

Mas voltando ao nosso amigo, que eu vou chamar de agora em diante pela letra C, percebi que ele ficou por alguns momentos ouvindo o educador discorrer sobre as técnicas e programas das máquinas digitais. Houve uma parte prática de escolha de imagens pegas pela internet e também uma de  modelagem nos programas de desenho. Enfim, imaginei que ele, assim como eu, tinha se encantado pela tecnologia do “futuro” que havíamos trazido para a atividade. 

Voltei então para minha missão: coordenar as tais 7 atividades simultâneas. Tinham  2 mesas de construção de pebolim maker, uma de construção de foguetes com garrafas pet, uma mesa com o rosto robótico acionado por arduino, uma com os instrumentos musicais eletrônicos com uma placa de interface chamada Makey-Makey e uma com o robozinho ozobot, que segue linhas e faz leitura de cores, além da mesa com as máquinas de fabricação digital, corte a laser e impressão 3D. Cada mesa com um educador e 5 ou 6 crianças trabalhando. Muito movimento e concentração. Todos engajados em seus trabalhos e pesquisas, reflexão, muita mão na massa e compartilhamento. Via-se claramente uma “bolha” que envolvia cada mesa de atividade. 

Caminhando entre os espaços percebi que nosso amigo C não estava mais na fabricação digital. Quase que ao mesmo tempo fui procurado por um educador com uma dúvida pedagógica e conversamos durante uns 20 ou 30 segundos. Passou e me esqueci do amigo C. Continuei meu trabalho.

Fora da cobertura da quadra, bem próximo, havia a base de lançamento dos foguetes. Uma bacia grande virada com a boca para baixo, com um furo no meio para passar uma mangueira. Esta mangueira fica conectada de um lado em uma bomba de encher pneu de bicicleta e do outro em uma rolha encaixada no tal furo da bacia. Os makers mirins testavam seus modelos de foguete encaixando a boca da garrafa pet nesta rolha, de modo a deixar a garrafa de cabeça para baixo. Bombeando ar para dentro da garrafa, a pressão interna começa a subir e em determinado momento a boca da garrafa escapa da rolha lançando o foguete para o alto. Claro que esta atividade é extremamente excitante e envolvente. As crianças torcem, gritam, comemoram, correm atrás do foguete para pega-lo antes de cair no chão, fazem fila para o próximo lançamento, correm para reformar o design. Uma verdadeira festa criativa tecnológica maker. Até por que quando a garrafa escapa da rolha acontece um estampido, um barulho característico que indica que mais um foguete foi para o espaço. Isso incentiva muito os próximos a capricharem mais na construção e ver até que altura a nave pode chegar.

Continuando minha caminhada pela quadra, que agora estava transformada em uma verdadeira oficina maker maranhense, segui com os olhos dois meninos que acabavam de pegar seu foguete e o traziam para a mesa para os próximos incrementos. Chegaram afoitos porque estavam testando um novo modelo de paraquedas que deveria ser acionado no alto da trajetória do foguete de moda a evitar que ele batesse no chão na volta. Vieram correndo e comentando sobre as reformas e logo relataram suas observações para, adivinha quem? Nosso amigo C, de vinte e poucos anos, transformado em uma criança de 9. Correndo, quase saltitando de alegria em direção aos meninos para buscar o então paraquedas testado. Com a pistola de cola quente em uma das mãos e uma lona plástica cortada em círculo na outra rapidamente realizou o reparo e todos, meninos e menino, correram para entrar na fila do lançamento de foguetes. 

Estava lá, nosso amiguinho C, tímido de início, curioso em seguida, transformado em construtor maker de foguetes de garrafa pet. Visivelmente feliz e conectado em sua missão de atingir grandes altitudes e retornar à terra através de um paraquedas de plástico.

Debate, por Amanda

Carolina, Maranhão. Sexta-feira, 24 de junho, noite de São João. Dezenas de alunos do Ensino Médio, alguns professores, cadeiras lotadas, pátio da escola.

"Meu amigo parou o Ensino Médio e foi trampar na obra. Voltou a estudar e já sabe tudo, é o melhor aluno de engenharia elétrica" - "A escola já te prepara para a vida. É só ver o enunciado dos exercícios nas provas, no ENEM, todos partem de uma situação do cotidiano".

"Não dá para dar atenção para 200 alunos ao mesmo tempo, você não tem 200 amigos por exemplo" - "O conhecimento já está disponível".

"A gente tem que dar todas as matérias, não dá para o aluno sair sabendo só uma coisa" - "Provas, repetências e matérias específicas são um desestímulo, e eu acho que a escola não deveria excluir ninguém".

Foi dia de festa junina, uma queimada tinha acabado de acontecer, e os professores que esperávamos para a palestra sobre aprendizagem criativa não apareceram. Invés disso, vieram turmas de Ensino Médio do CELAM, uma escola da região. Uniformizados, sentaram enfileirados nas cadeiras e fizeram silêncio, como sempre.

A palestra falhou e uma ideia surgiu: dividir o grupo em dois e propor um debate escola tradicional VS escola sem salas, sem aulas, sem provas. Um professor resolveu romper as regras e mudar de grupo, deixando para trás aqueles que havíamos pedido para defender a escola tradicional. Os outros defenderam suas matérias e maneiras.

Mas algo de inesperado aconteceu: acima de qualquer autoridade, as vozes dos alunos se fizeram ouvir. Haja ou não mudança amanhã, eles já mostraram que têm o poder e o conhecimento para propor algo novo.

-, por Ico

  Apos 11 dias de viagem, estamos em Carolina, uma cidade de não mais do que 30 mil habitantes às margens do rio tocantins.

  Durante a chegada, fomos contemplados por um por do sol espetacular à beira da chapada das messas. Atravessando o rio de balsa, olhamos uns para os outros e, sem precisar dizer uma palavra, percebemos o significado especial daquela travessia, como se estivéssemos agora enfim entrando em um Brasil que a maioria de nós desconhece e com as características culturais e geográficas que estávamos sonhando explorar.

   Nossa equipe continua crescendo e agora somos 13 viajantes com o objetivo de de levar o universo digital e despertar a aprendizagem criativa país adentro, e assim somos esperados pelas crianças e professores que curiosos e ansiosos esticam os seus pescoços em direção ao nosso estande de atividades.

   A cada dia que passa, afinamos nossas habilidades de atuação e interação, enfrentando os desafios e as glórias que a expedição nos proporciona.

   Que bom que ainda tem muito chão pela frente...