Amigo C, por Orlando

Ele chegou mais para o final da tarde, quando as atividades já haviam começado. Deve ter entre vinte e trinta anos de idade. Aproximou-se meio tímido. Talvez por que a maioria do público que estava na atividade fosse bem mais jovem. Crianças, na verdade. Fui logo recebê-lo para convidá-lo para a atividade. Eu realmente não sei o seu nome, pois nesse momento minha atenção estava no desenrolar das 7 atividades simultâneas que estavam acontecendo na quadra. Estávamos num espaço coberto porém sem paredes. Era no meio de um grande pátio de uma escola na cidade de Carolina, Maranhão. Fazia um calor maranhense do lado de fora.

Fiz então, uma tentativa de aproximação dele com a atividade de impressão 3D e cortadora laser, por achar que alguém mais velho se interessaria por assuntos mais técnicos. Eu mesmo sempre me admiro com aquela máquina de impressão 3D funcionando. É muito impressionante. Uma máquina que constrói um objeto físico na sua frente, a partir de um filamento de plástico derretido e um desenho virtual. Bom, eu ainda não me acostumei comisso. É incrível. Você faz um desenho no computador e a máquina transforma em objeto físico.

Mas voltando ao nosso amigo, que eu vou chamar de agora em diante pela letra C, percebi que ele ficou por alguns momentos ouvindo o educador discorrer sobre as técnicas e programas das máquinas digitais. Houve uma parte prática de escolha de imagens pegas pela internet e também uma de  modelagem nos programas de desenho. Enfim, imaginei que ele, assim como eu, tinha se encantado pela tecnologia do “futuro” que havíamos trazido para a atividade. 

Voltei então para minha missão: coordenar as tais 7 atividades simultâneas. Tinham  2 mesas de construção de pebolim maker, uma de construção de foguetes com garrafas pet, uma mesa com o rosto robótico acionado por arduino, uma com os instrumentos musicais eletrônicos com uma placa de interface chamada Makey-Makey e uma com o robozinho ozobot, que segue linhas e faz leitura de cores, além da mesa com as máquinas de fabricação digital, corte a laser e impressão 3D. Cada mesa com um educador e 5 ou 6 crianças trabalhando. Muito movimento e concentração. Todos engajados em seus trabalhos e pesquisas, reflexão, muita mão na massa e compartilhamento. Via-se claramente uma “bolha” que envolvia cada mesa de atividade. 

Caminhando entre os espaços percebi que nosso amigo C não estava mais na fabricação digital. Quase que ao mesmo tempo fui procurado por um educador com uma dúvida pedagógica e conversamos durante uns 20 ou 30 segundos. Passou e me esqueci do amigo C. Continuei meu trabalho.

Fora da cobertura da quadra, bem próximo, havia a base de lançamento dos foguetes. Uma bacia grande virada com a boca para baixo, com um furo no meio para passar uma mangueira. Esta mangueira fica conectada de um lado em uma bomba de encher pneu de bicicleta e do outro em uma rolha encaixada no tal furo da bacia. Os makers mirins testavam seus modelos de foguete encaixando a boca da garrafa pet nesta rolha, de modo a deixar a garrafa de cabeça para baixo. Bombeando ar para dentro da garrafa, a pressão interna começa a subir e em determinado momento a boca da garrafa escapa da rolha lançando o foguete para o alto. Claro que esta atividade é extremamente excitante e envolvente. As crianças torcem, gritam, comemoram, correm atrás do foguete para pega-lo antes de cair no chão, fazem fila para o próximo lançamento, correm para reformar o design. Uma verdadeira festa criativa tecnológica maker. Até por que quando a garrafa escapa da rolha acontece um estampido, um barulho característico que indica que mais um foguete foi para o espaço. Isso incentiva muito os próximos a capricharem mais na construção e ver até que altura a nave pode chegar.

Continuando minha caminhada pela quadra, que agora estava transformada em uma verdadeira oficina maker maranhense, segui com os olhos dois meninos que acabavam de pegar seu foguete e o traziam para a mesa para os próximos incrementos. Chegaram afoitos porque estavam testando um novo modelo de paraquedas que deveria ser acionado no alto da trajetória do foguete de moda a evitar que ele batesse no chão na volta. Vieram correndo e comentando sobre as reformas e logo relataram suas observações para, adivinha quem? Nosso amigo C, de vinte e poucos anos, transformado em uma criança de 9. Correndo, quase saltitando de alegria em direção aos meninos para buscar o então paraquedas testado. Com a pistola de cola quente em uma das mãos e uma lona plástica cortada em círculo na outra rapidamente realizou o reparo e todos, meninos e menino, correram para entrar na fila do lançamento de foguetes. 

Estava lá, nosso amiguinho C, tímido de início, curioso em seguida, transformado em construtor maker de foguetes de garrafa pet. Visivelmente feliz e conectado em sua missão de atingir grandes altitudes e retornar à terra através de um paraquedas de plástico.