Inteligência emocional deve ser trabalhada em casa e nas escolas, alertam educadores

Habilidades sociais e emocionais são aplicadas e exigidas em diversas situações ao longo da vida de um indivíduo. Os pais são os maiores responsáveis pela formação e desenvolvimento de seus filhos nesse sentido, mas um número cada vez maior de especialistas em educação defende também que a escola é um ambiente propício para ajudar crianças e jovens a desenvolverem as chamadas competências socioemocionais. O termo inteligência emocional está cada vez mais presente nas discussões entre gestores escolares e educadores quando se trata de definir quais os novos papéis que a escola atual deve assumir para preparar seus alunos. A aprendizagem emocional é o processo pelo qual os indivíduos reconhecem e administram emoções, conseguindo assim estabelecer relações saudáveis, se comportar de forma ética e responsável, o que evita atitudes negativas. O tema despertou a atenção dos pais com as notícias de casos de suicídios entre jovens em colégios de São Paulo.

Além de fundamental para o sucesso nos relacionamentos interpessoais, a inteligência emocional traz impactos significativos para o bom desempenho acadêmico. Uma pesquisa do departamento de Psicologia da Universidade de Chicago realizada com 270 mil alunos da Educação Infantil ao Ensino Médio apontou que estudantes submetidos ao aprendizado de competências socioemocionais apresentaram uma melhora de 11% em suas notas. A diretora pedagógica da Editora Positivo, Acedriana Vicente Sandi, afirma que pais e professores precisam considerar o desenvolvimento da inteligência emocional como mola propulsora que potencializa a aprendizagem. “Não há como pensar em um desenvolvimento cognitivo sem considerar o desenvolvimento emocional. O aprendizado nasce da provocação que nos retira da indiferença e se essa provocação for positiva, muito melhor”, explica Acedriana.

Na Educação Infantil, jogos e brincadeiras – longe de representarem perda de tempo – são elementos vitais para ajudarem a desenvolver as habilidades emocionais. A nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC) considera como eixo estruturante da Educação Infantil as interações e as brincadeiras. Para Acedriana, todos os direitos de aprendizagem e desenvolvimento nessa fase – conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se – dependem do controle e da lida com as emoções para que possam avançar. “Como a BNCC determina onde se quer chegar, os currículos, obrigatoriamente, terão que compor os caminhos para alcançar o que está proposto no documento, contribuindo para esse processo de aprendizagem emocional”, reforça. Um bom exemplo, segundo Acedriana, são as situações nas quais as crianças devem ampliar o seu repertório, falando e ouvindo. “Este é um momento especial para desenvolver a capacidade empática de considerar o outro, ouvir com respeito o que ele tem a contar e acolher as diferenças”, explica.

Tão importante quanto destacar e ajudar a desenvolver o comportamento positivo é considerar no contexto da sala de aula o trabalho com as emoções negativas. Para Michelle Norberto, gestora e professora do 3º ao 5º ano do Colégio Positivo Júnior e especialista em Educação Inclusiva, assim como todas as demais emoções, a raiva e a tristeza devem ser discutidas e admitidas como válidas. “É fundamental que a criança saiba que, em alguns momentos, pode sentir essas emoções e que isso não é algo ruim. O que deve ser trabalhado são estratégias para que a criança possa identificar o que provoca essas emoções, que saiba nomear essas emoções quando as sentir e o que deve fazer em relação a isso”, explica a professora. Segundo a gestora, existem ferramentas para trabalhar com as crianças a inteligência emocional. Uma delas é o “emocionômetro”, pelo qual a criança pode demonstrar, a cada dia, como ela está emocionalmente. “Outra alternativa são os trabalhos de assembleias de classes – espaços de discussões proporcionados em sala, nos quais as crianças podem colocar seus sentimentos, preocupações e, por meio da mediação do grupo, ampliar essa inteligência”, descreve.

Para a professora Fabíula Galina, gestora do 6º e 7º ano do mesmo colégio, a abordagem com crianças e jovens deve ser diferente. “Atividades lúdicas, fantoches e teatros são boas alternativas para se trabalhar as emoções que rondam as crianças. No caso dos adolescentes, o que funciona bem são dinâmicas de grupo, filmes, jogos e roda de conversas”, afirma. O trabalho deve ser realizado de forma que eles aprendam a demonstrar as emoções negativas de maneira correta, sem adotar comportamentos agressivos ou de birra. “É importante destacar que não vivemos 24 horas por dia satisfeitos e felizes, temos que fazê-los entender que os sentimentos de tristeza e raiva fazem parte de nossa vida, e a forma de expressá-los é que fará a diferença”, destaca a professora. É o exercício da autopercepção e do autocontrole que vão consolidar a inteligência emocional.

O papel dos pais

Os pais também têm um papel fundamental no desenvolvimento da inteligência emocional dos filhos. A psicóloga escolar Mariana Drabik Vieira, do Colégio Positivo Júnior, dá dicas de como fazer isso:

- Estabelecer uma relação de confiança e vínculo afetivo;

- Ajudar a nomear os sentimentos e sensações;

- Valorizar os aspectos positivos e as ações positivas, em vez de evidenciar as negativas;

- Realizar cobranças de acordo com a faixa etária. Não sobrecarregar as crianças com ações que elas ainda não são capazes de realizar sozinhas;

- Em vez de privar a criança das situações de frustração, trabalhar e desenvolver a consciência diante delas;

- Deixar claro a hierarquia que deve existir nas relações entre pais e filhos, professores e alunos, e que há regras que são inegociáveis;

- Os pais devem estar presentes, fisicamente e emocionalmente, na vida dos filhos;

- Desenvolver nas crianças o saber escutar e dialogar.

 

Fonte: Estadão