Blog MundoMaker

A construção de cidadãos que fazem

Compartilhe em suas redes sociais:

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin

A construção de cidadãos que fazem

A educação integral, a cultura maker e o empreendedorismo desenvolvem competências para viver em um mundo exponencial, complexo e incerto

 

Por Fabio Zsigmond-

O termo “empreendedorismo” costuma trazer à mente a imagem daqueles seres fora do comum que usam suas ideias geniais para fundar startups. Em sua etimologia, entretanto, o sentido é mais amplo: vem do francês entreprendre, ou “realizar”; e do sânscrito Antha Prerna, que pode ser traduzido por “auto realização”. Quando um indivíduo era chamado de empreendedor, significava que era percebido como alguém que assumia a responsabilidade de buscar uma meta que lhe traria auto realização. Foi somente no século 17 que o termo foi utilizado no sentido econômico que carrega atualmente.

Sempre tive afinidade com o entendimento mais abrangente de empreendedorismo. Empreender é transformar ideias em realidade. Nossa vida é um empreendimento constante. Porém, nessa jornada percebemos que não estamos sozinhos no mundo, e que precisamos aprender a nos relacionar com três dimensões a nossa volta: com os outros, com o mundo e a natureza, e por fim, com nós mesmos. Para responder a essa demanda vejo como premente a adoção da Educação Integral em nossas sociedades. E o que seria Educação Integral? Segundo o Centro de Referência de Educação Integral,  é “uma concepção que compreende que a educação deve garantir o desenvolvimento dos sujeitos em todas as suas dimensões – intelectual, física, emocional, social e cultural – e se constituir como projeto coletivo, compartilhado por crianças, jovens, famílias, educadores, gestores e comunidades locais”

Recentemente pensadores de variados backgrounds publicaram trabalhos que abordam esse olhar tríplice, que considero a base da Educação Integral, entre eles Patrick Paul (Formação do Sujeito e Transdisciplinaridade), Peter Senge e Daniel Goleman (O Foco Triplo, uma nova abordagem para a educação) e Satish Kumar (Solo, Alma e Sociedade).

Aprendendo a fazer

Existe uma relação direta entre o conceito amplo do empreendedorismo e a chamada cultura maker. Para além de robótica, programação, impressoras 3D

e máquinas de corte a laser, o “make” está relacionado ao “fazer”.  O maker é quem põe a mão na massa. Mas ele não faz, simplesmente, de qualquer jeito, e sim com uma atitude.

E qual seria essa atitude? O maker é curioso, resiliente, experimentador.  Explora possibilidades, erra e aprende com os erros. Diverte-se fazendo e gosta de compartilhar suas descobertas. Olha um problema e é capaz de elaborar um projeto criativo e colaborativo para resolvê-lo. E, fundamentalmente, é apaixonado pelo que faz. Essas características são muito presentes em todos nós quando vivemos a nossa infância, porém só alguns conseguem mantê-las na idade adulta.

Pesquisadores e cientistas perceberam a potencialidade dessa forma de comportamento e contribuíram para trazê-la para a educação. Entre eles estão John Dewey, Seymour Papert e Mitch Resnick.  Este último desenvolveu o conceito de Aprendizagem Criativa, a partir das ideias de Frederick Froebel, o criador do Jardim da Infância, e das descobertas de Dewey e Papert em relação ao que potencializa a aprendizagem, como o papel do fazer e a importância do contexto e do sentido da atividade proposta para o aluno. A Aprendizagem Criativa é uma  filosofia de educação baseada em quatro pilares (4Ps): Projects, Passion, Peer Learning e Play. Trata-se de uma prática pedagógica baseada em projetos (Projects), em que os alunos são movidos pelo que tem significado para eles (Passion), trabalham de forma colaborativa (Peer Learning) e  são valorizados por competências como curiosidade, criatividade e resiliência (Play).

A introdução de práticas ligadas à Educação Integral e Aprendizagem Criativa na educação abre caminho para encontramos a solução para os problemas cada vez mais complexos que enfrentaremos. A população mundial levou 200 mil anos para chegar a um bilhão de pessoas, e somente 200 anos para ir de um para sete bilhões. Crescem exponencialmente também a produção de CO2, a utilização de água, o desmatamento de florestas e a extinção das espécies (veja gráfico). Vivemos ainda uma época extremamente complexa e incerta, com uma profusão de informações difíceis de serem claramente interligadas. A ubiquidade do uso de tecnologias digitais permitiu o surgimento de um repositório gigantesco de dados, que se transformou no objeto de maior valor que temos hoje em dia, concentrado em praticamente cinco organizações: Facebook, Amazon, Apple, Netflix, Google, e um governo, o Chinês.

Quais competências e qualificações nos habilitam a compreender e atuar neste contexto? Não é muito difícil perceber que sem saber o que chamamos de Ciência dos Dados e Programação de Computadores, ficaremos à margem do núcleo que decidirá os rumos da humanidade. Mas isso não basta. Iremos precisar de cidadãos empreendedores, acostumados com a cultura maker. Guiados pela ética e com habilidades tais como colaboração, criatividade e autoconhecimento, terão a capacidade de pensar criticamente e trazer suas ideias para a realidade, contribuindo para a construção de um mundo mais justo, sustentável e confortável.

Novas propostas

Já temos escolas e universidades no Brasil e no mundo que praticam uma educação que responde aos desafios da exponencialidade, da complexidade e da incerteza. São propostas de uma Educação Integral fundamentada em valores éticos, cultura maker e na postura empreendedora. Como exemplos de ensino básico poderia citar o Projeto Âncora em Cotia, na Grande São Paulo, a Glashan Public School em Ottawa, no Canadá , e a Green School em Bali, na Indonésia, cada uma com sua particularidade e respeito às características de sua comunidade. No ensino superior, eu citaria os cursos de engenharia do Insper e o de medicina do Hospital Israelita Albert Einsten, em que os alunos são colocados, desde o início, em contato com questões reais e precisam mobilizar diversas dimensões e conhecimentos para abordá-los e resolvê-los.

Não é por acaso que, dentre os 10 professores finalistas do “Global Teacher Prize” de 2019 – o   equivalente ao prêmio Nobel da educação –, tivemos a brasileira Debora Garofalo, que utiliza a Aprendizagem Criativa no projeto Robótica com Sucata em uma escola pública de SP; e que um dos filmes de maior sucesso este ano no Netflix, “O Menino que Descobriu o Vento”, conta a história, baseada em fatos reais, de um jovem que vive no Malawi em condições de seca e pobreza e que criou uma solução criativa para resolver o problema de falta de água para a  agricultura de seu vilarejo.  

O mundo está mudando rapidamente e as fórmulas antigas não resolvem mais as complexas equações do nosso tempo. Para preparar nossos jovens e também para nos mantermos vivos e atuantes, precisamos buscar propostas de educação que levem em consideração a velocidade, a complexidade e incertezas do mundo. Além de ensinarem as tecnologias, essas novas propostas devem reconhecer que somos seres humanos, que estamos no centro do nosso processo de aprendizagem e que temos também uma natureza tríplice, o que nos leva a ter que aprender a nos relacionar com nós mesmos, com os outros e a sociedade em geral, e com o mundo, a natureza e seus sistemas.

Temos dentro de nós, e também ao nosso redor, recursos para criar coletivamente  soluções para os problemas que se colocam à nossa frente.  Sejamos ousados e deixemo-nos abrir ao novo, permitindo que, na relação entre nossa experiência e o contato com o novo e desconhecido, encontremos caminhos criativos.

Fabio Zsigmond > CEO do MundoMaker Educação> fabio@mundomaker.cc

Para saber mais:

Zsigond, F. Educação 4.0, como ir da teoria a prática, 2019. Disponível  em: https://www.youtube.com/watch?v=2riq9uIHf5U&t=2362s

Tony Wagner e  Robert A. Compton. Creating Innovators: The Making of Young People Who Will Change the World. New York: Scribner, 2012

Edward P. Clapp , Jessica Ross, Jennifer O. Ryan e  Shari Tishman. Maker-Centered Learning, empowering young people to shape their worlds. Hoboken, NJ: John Wiley & Sons, 2017

Sylvia Libow Martinez e Gary S. Stager. Invent to Learn: Making, Tinkering, and Engeneering in the Classroom. Torrence, California: Constructing Modern Knoledge Press, 2019

Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa, Site Aprendizagem Criativa. Disponível em: www.aprendizagemcriativa.org

Site: www.mundomaker.cc/referencias

ARTE (Para entender melhor escala de construção do gráfico, veja: https://endofcapitalism.files.wordpress.com/2008/10/exponent.jpg

Você também pode gostar de:
topo

Com qual unidade você deseja se comunicar?