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O curioso trajeto da faquinha ‘sloyd’

O curioso trajeto da faquinha ‘sloyd’

Marca passo a educação que não incorpora as mãos no processo de aprender.

Comprei no AliExpress uma simpática faquinha, chamada de “sloyd” pelo fabricante. Como haveria chegado a uma cutelaria chinesa essa palavra com ar escandinavo? Ao desvendar o mistério, veremos que mãos e cérebro estão mais próximos do que pareceria.

Durante os longos invernos escandinavos, ficar dentro de casa era uma opção inevitável (como o isolamento dos dias de hoje). Numa sociedade ainda pobre e rodeada de florestas, por que não construir objetos úteis de madeira? Porém, no século 19, produzir vodca em casa revelou-se uma alternativa mais atraente. O problema é que a produção levou a uma bebedeira generalizada e ao desaparecimento desse artesanato.

Diante do problema, o governo resolveu usar suas escolas básicas para ensinar aos jovens as artes que se haviam perdido nas labutas com os alambiques. Era preciso relançar produtos para o mercado. Mas, com o tempo e boas cabeças cuidando do assunto, chegou-se à conclusão de que construir objetos de madeira tinha forte impacto no desenvolvimento da personalidade e da cognição. Abandonou-se então a índole comercial e tais atividades foram estruturadas, passando a ser incorporadas ao currículo escolar, apenas por seus fortes méritos educativos. O movimento foi chamado de Sloyd, o nome das faquinhas usadas pelos alunos nos seus trabalhos.

Diante do grande sucesso em toda a Escandinávia, os suecos criaram cursos visando a preparar professores de Sloyd para o mundo inteiro. Ao início do século 20, alguns brasileiros frequentaram tais programas.

E assim veio para o Brasil a disciplina de Trabalhos Manuais. Porém, dada a nossa cultura avessa a usar as mãos, os verdadeiros objetivos educacionais foram se perdendo. Sobrou uma caricatura, com poucas e toscas ferramentas sendo usadas sem quaisquer consequências educativas. Quando foi aposentada, lá pelos anos 1970, já não servia para nada.

Mas acontece que há mais substância nessa ideia do que se podia perceber nas nossas desmoralizadas atividades escolares. O movimento Sloyd teve enorme impacto nas escolas americanas. De fato, até hoje todas as escolas têm oficinas e professores competentes apoiando os alunos. Não é descabido pensar que isso tenha contribuído para fazer daquele país o campeão mundial das patentes.

Com o tempo, houve uma bifurcação dentro das escolas americanas. Os alunos de maior status convergiram para as disciplinas acadêmicas, mais abstratas, ficando as oficinas para os mais modestos. Como resultado, as atividades manuais passaram a ser vistas com desdém. Ser obrigado a matricular-se nelas era uma punição para o fracasso nas áreas acadêmicas.

Todavia esses acidentes de percurso não fazem senão esconder o papel das mãos na educação. O homem deixa de ser um primata como os outros na medida em que evolui a funcionalidade de suas mãos, exigindo cada vez mais da sua inteligência em usos mais ambiciosos. Um cérebro cada vez maior é a resposta aos desafios de criar objetos úteis, enfim, tecnologia. Do ponto de vista fisiológico, isso significa que as áreas do cérebro encarregadas de missões complexas e criativas desenvolveram conexões íntimas com as mãos. O que se aprende usando as mãos cala mais fundo.

Filósofos gregos perceberam que mãos e inteligência operam em contato estreito. Corporações de ofício de origem medieval têm como moto “o conhecimento mora na cabeça, mas entra pelas mãos”. Ou seja, marca passo a educação que não incorpora as mãos no processo de aprender. As escolas Waldorf têm isso muito claro.

Alvíssaras! Entra em cena o movimento Stem, de Science, Technology, Engineering and Mathematics. Podemos ver nele uma versão atualizada das ideias do Sloyd. Lidando com tecnologia e com problemas de engenharia, desenham-se conexões com os princípios científicos e com as ferramentas matemáticas correspondentes. Se ficasse aí, seria uma boa maneira de contextualizar ciência e matemática. Mas a genialidade da ideia é que isso tudo acontece dentro de projetos realizados pelos próprios alunos. Ou seja, volta o protagonismo das mãos para o primeiro plano. E os ganhos educacionais não podem ser subestimados. Deixa de entender o que está perdendo quem não sentiu o imenso prazer de criar com as mãos algum objeto. Aliás, essa emoção leva a um aprendizado mais profundo.

E não para aí, abre-se mais uma porta. Na última década aparecem nos Estados Unidos os Maker’s Spaces. São oficinas, simples ou sofisticadas, oferecendo a quem quiser a oportunidade de ir lá e construir o que lhe der na telha. Pode ser um carrinho de rolimã ou um robô controlado por Arduino.

Isso acaba chegando ao Brasil, pois nossa fome de novidades é invencível. Esparramam-se os Maker’s Spaces por aí. O potencial é enorme.

Mas os vícios culturais que esmagaram o nosso Sloyd não desapareceram. Poucos entenderam que as mãos oferecem uma passagem secreta para o conhecimento. Um dia, ao sairmos dessa maldita covid, poderemos pensar seriamente em educação. Seria a chance de usar as mãos para turbinar o nosso ensino?

*Originalmente publicado por Claudio de Moura Castro, O Estado de S.Paulo | 1º de maio de 2021 | 23h55

Gamificação em sala de aula: veja como aplicar

A gamificação é uma técnica que vem sendo utilizada para tentar superar o desinteresse dos estudantes na escola. Trata-se de uma metodologia que se utiliza de elementos dos jogos para o processo de aprendizagem. A ideia é sistematizar ações muito presentes em jogos e aplicá-las em situações de não-jogo. Mas atenção: essa técnica não significa transformar a educação em um jogo! O objetivo final é deixar o conteúdo atraente para engajar os alunos. 

Não é necessário o uso de aparelhos tecnológicos para se utilizar desse mecanismo, sendo possível realizá-la com os recursos disponíveis no momento. É preciso, porém, de planejamento para aplicação da gamificação na sala de aula.

Os professores doutores Paulo Montanaro e Daniel Mill, do curso de especialização EduTec (Educação e Tecnologias) da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), explicam que a ideia da gamificação é envolver o estudante como protagonista da própria aprendizagem, permitindo que o aluno esteja plenamente consciente daquilo que está aprendendo e desenvolvendo, conferindo-lhe poderes e responsabilidades sobre o aprendizado pessoal e também coletivo. 

“Tal como no universo dos games, é possível que se utilize ciclos cada vez mais curtos de feedback, em que o erro ou o tropeço é parte da experiência formativa (e não mero sinal de fracasso). Também é possível que o aluno possa se apropriar de suas melhores habilidades para solucionar desafios. Ou, ainda, que identifique pontos a melhorar para investir energia e superar limitações e, sobretudo, se importar com o caminho e não só com o destino final. Assim, se sentirá recompensado e realizado por todo o processo e resultados”, explicaram.

Por onde começar?

Na avaliação dos pesquisadores da UFSCar, a gamificação no Brasil ainda engatinha e é baseada em ações individuais e experimentações de professores pioneiros e pesquisadores.

“Falta-nos ainda dar o passo seguinte, pensar a gamificação enquanto projeto pedagógico efetivo, como parte da estrutura institucional mais sedimentada e como estratégia ímpar para melhoria educacional”, acreditam.

Nesse sentido, é preciso encarar a gamificação como uma estratégia dentro de sala de aula que pode ser proveitosa em diferentes momentos dentro de um projeto pedagógico. “A gamificação é uma série de possibilidades educacionais e não uma modalidade de ensino”, resumem os pesquisadores da UFSCar. Sendo assim, é interessante pensar a gamificação dentro de um programa maior, que envolve conteúdos em vez de ser uma disciplina, por exemplo.

O professor Bruno Reis, do Colégio Sagrado Coração de Jesus, de Belo Horizonte (MG), é professor de História há 21 anos e nunca havia pensado que a tecnologia pudesse mudar tanto sua rotina profissional. Em 2016, a instituição de ensino fez uma parceria com a Google for Education e ele passou por diversas formações. Além disso, conta que buscou por iniciativa própria novas formações, a seguir professores que também utilizavam a tecnologia/metodologias ativas em suas aulas e mentoria de amigos professores e colegas de trabalho.

Com isso, percebeu que era possível deixar a disciplina de História mais atraente ao colocar em prática os conhecimentos construídos nas aulas. “Ao elaborar uma aula criativa, penso primeiro ‘onde eu quero chegar com os alunos’ e depois busco a ferramenta adequada para alcançar os objetivos”, explicou.

“É muito importante, no momento de iniciar o projeto, deixar claro para os estudantes todos os objetivos que vamos alcançar com a atividade. Explico todas as etapas do projeto e, se necessário, ensino a trabalhar com a ferramenta”, continuou.

A preparação para o uso de estratégias gamificadas em sala de aula não é tão diferente de qualquer outro método de planejamento ou dinâmica pedagógica. “Talvez o grande diferencial seja criar possibilidades de ação que favoreçam a escolha, a criatividade e a inventividade dos estudantes”, avaliam os professores Paulo Montanaro e Daniel Mill.

“Uma estratégia gamificada precisa garantir que todos os envolvidos se sintam parte ativa da construção coletiva e cabe ao professor garantir, dentro das regras estabelecidas para o mundo imersivo, que essa criação compartilhada seja valorizada e os leve até onde devem chegar”, concluem. 

Engajamento dos alunos

Não é novidade que a grande maioria dos jovens gosta de jogos, sejam eles eletrônicos ou não. Soma-se a isso o fato de que jogos proporcionam competições e desafios, o que acaba por envolver e contagiar a todos.

O professor Bruno Reis conta que já utilizava as mecânicas da gamificação, mas passou a estar mais próximo da metodologia em 2020, após um curso realizado com o professor Tiago Eugênio, do Aula em Jogo

“Confesso que me surpreendo com as possibilidades que a gamificação oferece. Já apliquei ‘escape room’, elaborei ‘flashcards’ e utilizei outros recursos e estratégias que engajam e motivam os alunos a estudarem História. Aliado à gamificação, faço uso do storytelling para introduzir e envolver os alunos na atividade a ser realizada. Para isso, utilizo, por exemplo, os filtros do Instagram para gravar pequenas narrativas e encorajar os alunos a cumprirem os desafios propostos”, relata o docente.

“Os resultados da utilização da gamificação são incríveis. Além de ficarem motivados, desenvolvem várias habilidades como autonomia, persistência, liderança, as competências socioemocionais, a socialização e a comunicação e, claro, aprendem história”, resume.

A gamificação, porém, não depende de aparelhos tecnológicos para ser aplicada. O professor pode se apropriar de tecnologias tradicionais, como a escrita, o papel, o lápis, o diálogo. “A gamificação não acontece por meio de computadores poderosos ou smartphones de última geração, por mais sofisticados que possam parecer. Ela acontece na experimentação, individual e coletiva, pelo engajamento e protagonismo de cada estudante em cada conteúdo e nos caminhos a serem percorridos, e isso independe dos meios de mediação adotados”, ressaltam os pesquisadores Daniel Mill e Paulo Montanaro.

Gamificação no ensino híbrido

Considerando que a gamificação é uma técnica para engajar alunos e não simplesmente a adoção de jogos dentro da sala de aula, essa metodologia pode e deve ser aplicada durante o ensino híbrido.

Que tal começar as atividades em momentos ditos presenciais e continuar em ambientes virtuais, ou vice-versa? “O educador pode, na mais simples das formas, criar um sistema de conquistas e troféus para atividades nos diferentes momentos, um sistema de progressão que valorize ações dentro e fora do ambiente virtual e caminhos alternativos e complementares que ampliem o universo a ser explorado sem comprometer a aprendizagem primária”, sugerem os professores pesquisadores da UFSCar.

Eles acreditam que o ambiente da educação híbrida seja um espaço de grande potencial para atividades gamificadas, uma vez que o ensino presencial e até mesmo o remoto ainda são muito rígidos em seus conceitos. “É na maleabilidade e na flexibilidade do espaço híbrido que se pode criar, explorar possibilidades, expandir limites e experimentar modelos”, explicam.

 “Tão importante quanto ousar é aprender com isso, aprimorar, refinar e incorporar processos e procedimentos em projetos pedagógicos não mais como uma aventura ou iniciativa solitária e frágil, mas sim como uma prática regular, estruturada e institucionalizada”, dizem.

Exemplo de atividade de gamificação em sala de aula

Os pesquisados da UFSCar ressaltam que a gamificação não prevê narrativas complexas ou ações cheias de materiais midiáticos. “Ela está muito mais preocupada na vivência, na experimentação, na participação ativa do estudante. É possível adotar estratégias gamificadas nas pequenas ações do dia a dia se perguntando coisas como: o estudante sabe, de verdade, se ele aprendeu aquilo que estou ensinando?”, sugerem os professores doutores Daniel e Paulo.

“Talvez um trabalho investigativo, talvez criar um cenário cheio de mistérios e pistas a serem desvendadas, talvez buscar artifícios de obstáculo calculado. Enfim, uma atividade de colaboração onde cada membro de um grupo tenha uma tarefa determinada e necessária para o conjunto”, continuam. Os pesquisadores são enfáticos: o objetivo da atividade não é o ponto final, mas sim parte do caminho do processo de aprendizagem.

O professor Bruno Reis compartilhou com o Escolas Exponenciais uma atividade que trabalhou com os alunos em 2020, já durante o ensino remoto. Confira o relato:

Um exemplo de atividade que trabalhei foi a construção de um “Escape do Egito Antigo”, com as turmas de 6º ano do Ensino Fundamental II. O objetivo do projeto foi utilizar a ferramenta como estratégia para finalizar o conteúdo sobre o Egito Antigo, revisando e consolidando a aprendizagem.

Num primeiro momento, compartilhei com os alunos, um vídeo de introdução ao jogo, criado no aplicativo “Snap Câmera”, utilizando um filtro de faraó, que causou muita expectativa.

Após o link compartilhado do jogo, os alunos tiveram 25 minutos, para abrir os “cadeados” em forma de sarcófago, respondendo aos desafios propostos.

Os alunos que conseguiram atingir finalizar o jogo, receberam um “badge” por terem vencido os desafios e se transformado em pequenos grandes desbravadores egípcios.

*Originalmente publicado por Escolas Exponenciais

 

A Shift Towards Alternative Education Models Is Key to Bridging Tech Skills Gap

COVID-19 exacerbated the digital skills gap in the U.S. With traditional education becoming unattainable for many, alternative education and training models have proven to be a viable pathway for successful and long-term careers, especially in the tech industry.

The long-standing digital skills gap in the U.S. has been exacerbated at an alarming rate by the ongoing pandemic. A recent study by the National Skills Coalition found that nearly a third of American workers have limited to no digital skills, underscoring the scale of this issue and the emerging workforce crisis. More individuals now utilize alternative education and training models such as vocational academies and hands-on boot camps to gain relevant industry experience as more viable pathways for long-term careers.

Given the lower costs and tailor-designed curriculums centered around functional training to meet immediate employer needs, these alternative training models can be especially beneficial to young workers from marginalized communities who continue to have limited access to traditional educational models. When focused on STEM training, in particular, these models provide a critical pathway for many, who are structurally relegated, to finally achieve economic mobility with high-paying jobs across the technology sector and without the crippling debt burden concomitant with a four-year degree.

Addressing the Digital Skills Gap Within Tech

There are few areas in the tech sector where the skills gap is particularly acute and creates a growing workforce imbalance due to surging demand and a limited supply of engineers. These include infrastructure computing, edge computing, cloud computing, and critical support roles of DevOps and SRE. The shift to agile software development has increased the demand for software engineers, hybrid software/hardware, and infrastructure computing engineers. Over 55% of engineers now perceive cloud-based skills to be the most important of all.

Companies like Google and Apple are turning towards hands-on vocational academies and courses to educate and identify future talent. Despite these efforts, there are longstanding challenges in finding and retaining this talent. According to a DevOps Institute study, 58% of business leaders said finding skilled individuals is a major challenge, and 48% struggle to retain qualified DevOps employees.

Diversifying Innovative Industries

Aside from finding and retaining engineering talent, tech companies also struggle to hire, develop, and retain diverse talent, especially in technical roles. Research from Diversity in Tech shows that only 15% of tech professionals are black, Asian, or another ethnic minority. This surging demand for software and infrastructure/edge computing, especially with the rise of IoT and expanding untapped workforce from underserved communities, presents a critical challenge and opportunity for this country. 

By its very design, edge computing aims to increase the collective computing resources for a community using local peripheral machines such as home appliances, digital accessories, and even electric vehicles for low-latency computation. One would hope that this “democratization” of computing would not only benefit under-resourced communities but, more importantly, be architected by their very own brilliant members. 

Rebuilding an Agile Educational Model for the 21st Century

It stands to reason that the traditional college education model, which is ill-equipped to provide the functional training for employment in the digital economy, offers limited viable career pathways, especially for our underserved communities. Apple CEO Tim Cook underscored this growing educational and employment misalignment by stating that there is a “mismatch between the skills that are coming out of colleges and what the skills are that we believe we need in the future, and many other businesses do.” 

COVID-19 has fundamentally disrupted the technology sector’s economic model. This disruption, along with soaring costs of the four-year college education model, is ushering in new tech-centric education models, including vocational schooling.

A recent study by The Simple Dollar showed that average trade school programs cost $33,000, compared to $127,000 for the typical bachelor’s degree. This is a clear case for the economic benefits offered by these alternative models. Students taking advantage of these new models, especially in tech fields, can find meaningful employment over shorter time frames with much lower costs and higher returns based on equivalent or potentially higher earnings. 

As current and future administrations rightfully focus on rebuilding our nation’s physical infrastructure, they will also need to invest in building our digital infrastructure to monitor and mitigate climate change, stem the next pandemic, enhance logistics, accelerate medical discovery, and repulse cyberattacks. 

This will require a reimagining of how we are effectively training our future workforce. It will no longer entail learning about the Missouri compromise, the iambic pentameter, or the Krebs cycle. Instead, it will include learning how to trade solar energy from your backyard in Detroit to an elementary school in Managua and administer robotic-aided surgery as a physician in Austin to a child in Hanoi powered by a centrifuge in their remote clinic.


*Originalmente publicado por Sheldon Gilbert | 24 de março de 2021

Sheldon Gilbert is committed to excellence, innovation and equipping the future leaders of the tech industry with the necessary tools to succeed. After founding Proclivity Systems, a predictive analytics company and ad exchange platform, he saw there was a great opportunity and need to push for diversity within the tech industry. Inspired by his own experience and journey as an enterprise in tech, he founded Last Mile Talent, a non-profit software infrastructure engineer training and job placement program created to increase economic mobility in under-resourced communities by matching college students and recent graduates with high-demand jobs in cloud computing.

Aula ao vivo não é a melhor forma de ensinar durante a pandemia, diz educador de Harvard

SÃO PAULO — O especialista em educação internacional e professor da Universidade Harvard, Fernando Reimers, tem pesquisado desde março de 2020 o impacto educacional da pandemia em vários países. Este mês, ele lançou o livro Leading Education Through Covid-19, ainda sem tradução em português, que conta experiências de 28 líderes educacionais durante a pandemia.

Para Reimers, que é venezuelano, a inovação tem sido a grande chave para conseguir educar neste momento. Ele discorda da metodologia das aulas ao vivo e diz que se não houver boa liderança, inovação e colaboração entre governo e sociedade, a pandemia pode resultar no “maior retrocesso na educação em um século”. 

Qual o papel da inovação durante a pandemia?

A inovação tem sido fundamental para oferecer algumas formas de continuidade educacional durante o período em que as escolas não têm funcionado regularmente, embora certamente não tenha conseguido garantir as mesmas oportunidades de aprendizagem que as escolas oferecem ao ensinar pessoalmente, mesmo com todas as suas deficiências. Entre os que eu estudei, há várias características comuns, como conseguir educar crianças de diferentes condições sociais, como fizeram no Chile por exemplo. A intenção da inovação deve ser sempre garantir a aprendizagem do aluno, apesar de todos os obstáculos e dificuldades. Para dar certo, elas são feitas por equipes, muitas vezes em parcerias público-privadas, com lideranças humildes que promovem a voz e a participação de professores e membros da comunidade, facilitam alianças entre instituições e promovem a aprendizagem coletiva. 

Acredita que há benefícios que podem vir deste período para a educação?

A pandemia nos mostrou a importância de cultivar as habilidades dos alunos para aprender de forma autônoma e a necessidade de habilidades digitais. Acredito que a ênfase nessas questões continuará após a pandemia e que continuaremos a buscar maneiras de complementar a educação presencial com a educação à distância.

Há outras formas de ensino remoto que não seja apenas deixar os alunos diante de telas de computadores?

Claro, existem muitas maneiras de tornar a educação a distância dinâmica e interessante para os alunos. Isso inclui a promoção da aprendizagem baseada em projetos e formas de ensino centradas no aluno, que combinam o estudo independente com discussões em tempo real com professores e colegas. Mas, para conseguir implementar formas mais eficazes de ensino remoto, os professores precisam ser treinados e apoiados.

Aqui no Brasil, em 2021, passamos a fazer a chamada aula ao vivo, em que os alunos que estão na escola e os que estão em casa assistem à mesma aula. Isso acontece em outro lugar?

Se isso acontecer em outros lugares, não acho que seja a maneira mais eficaz de ensinar nesse contexto. Eu acho que é melhor fazer projetos separados para o ensino presencial e para ensino remoto. Tentar fazer um projeto que funcione igualmente bem para ambos é um desafio que poucos conseguiram resolver bem.

Acredita que o ensino remoto vai continuar mesmo com o fim da pandemia?

Não acho que as escolas remotas devam continuar depois da pandemia porque há benefícios indiscutíveis na educação presencial. As escolas talvez possam achar formas de complementar o ensino com atividades remotas. Elas podem permitir que os alunos trabalhem com mais autonomia ou colaborem com outros alunos em escolas diferentes, dentro do Brasil e até mesmo em outros países. Isso seria muito benéfico.

Qual deve ser o impacto na aprendizagem dos estudantes no mundo?

Ainda não sabemos, mas é certo que muitos alunos não aprenderam quase nada, entre eles, muitos não voltarão à escola. A pandemia sem dúvida aumentará as desigualdades sociais. O grande desafio para os sistemas educacionais será tentar recuperar o aprendizado perdido e preencher essas lacunas. 

Que outros efeitos a pandemia traz para a educação no mundo?

A pandemia tem efeitos diretos e indiretos na educação. Os efeitos diretos são aqueles que resultam da aprendizagem interrompida pelo fechamento da escola. Os efeitos indiretos são aqueles que resultam do impacto da pandemia na saúde e nas condições de vida dos alunos. Quando um membro da família fica doente ou morre, isso gera estresse e traumas para os alunos, dificultando os estudos. Quando um dos pais perde o emprego ou a renda, isso também afeta o apoio que as famílias podem dar aos alunos. Quando a violência doméstica aumenta em uma família, como resultado do estresse múltiplo criado pela pandemia, isso também afeta as chances de aprendizagem. Infelizmente, alguns desses efeitos continuarão mesmo depois que todo mundo da educação for vacinado. Os próximos anos serão muito difíceis para a educação. Exigirão uma liderança muito boa, muita inovação, muito profissionalismo e muita colaboração entre vários grupos sociais, entre o governo e a sociedade civil, para que a pandemia não resulte no maior retrocesso na educação em um século.

*Originalmente publicado por Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo | 25 de fevereiro de 2021 | 15h00

Como construir uma boa rubrica de avaliação

A partir daqui preparamos um infográfico especial para ajudar você na hora de definir critérios para construir uma boa rubrica de avaliação.

*Originalmente publicado no Porvir

Desenvolvimento integral do professor vai além do olhar para o socioemocional

Duas experiências internacionais de formações para educadores fortalecem a conexão entre múltiplas dimensões do ser humano

Formar um professor que além de dominar o conteúdo, saiba entender suas emoções e estabelecer relações positivas com seus pares e alunos demanda um olhar para o desenvolvimento integral. Até que ele ou ela entendam que o aluno precisa avançar em diferentes dimensões, o caminho profissional deve ser acompanhado de um constante trabalho de autoconhecimento.

A pesquisa Observatório do Professor, realizada pelo Instituto Península em parceria com a Ps2P, sinaliza que o desenvolvimento integral dos professores deve começar na formação inicial, com atividades práticas, de reflexão e conteúdos que preparem os profissionais para as realidades que vão encontrar em sala de aula. Na formação continuada, por sua vez, a formação integral pode envolver questões que vão além do conteúdo e abarcam, por exemplo, o fortalecimento do professor em suas relações e emoções, assim como uma maior compreensão da realidade onde a escola está inserida.

Considerando essa gama de conteúdos possíveis, o que significa formar um professor integralmente? Quais são as estratégias para fazê-lo? Para Mariana Breim, diretora da plataforma Vivescer e de desenvolvimento integral do Instituto Península, incentivar o desenvolvimento integral é encarar o professor como um ser inteiro, composto por inúmeras dimensões: o corpo, propósito pessoal, a dimensão socioemocional, moral e muitas outras.

“Todas essas dimensões colaboram para compor um ser completo, que precisa estar inteiramente disponível na relação com o aluno, para que possa proporcionar um desenvolvimento integral a ele. É necessário ensinar o professor não só a alfabetizar, mas também como criar um clima de conexão e abertura dentro de sala de aula, como deve regular as próprias emoções e, com isso, ajudar que os estudantes façam o mesmo”, exemplifica Mariana.

O professor precisa estar saudável em sala de aula, precisa cuidar de si, da voz, das emoções e de seu equilíbrio, porque só assim é que vai poder desenvolver nos alunos competências gerais de autoconhecimento e autocuidado

Essa conexão entre o bem-estar emocional e autocuidado do docente com sua prática em sala de aula é defendida pela nota técnica Desenvolvimento Integral de Professores, elaborada pelo Instituto Península. No trecho “É preciso que os professores apresentem um bom grau de maturidade emocional além de confiança em sua capacidade de trabalho e clareza de estratégias didáticas adequadas”, fica claro que, além de um trabalho com as competências socioemocionais, o desenvolvimento integral docente diz respeito também a competências cognitivas e híbridas, que misturam as outras duas. “Tudo começa com autoconhecimento e autocuidado. O professor precisa estar saudável em sala de aula, precisa cuidar de si, da voz, das emoções e de seu equilíbrio, porque só assim é que vai poder desenvolver nos alunos competências gerais de autoconhecimento e autocuidado”, explica Mariana.

Porvir conversou recentemente com dois centros nos Estados Unidos dedicados a promover esse tipo de abordagem. O Center for Reaching & Teaching the Whole Child, na Califórnia, nasceu em 2009 como um projeto da Universidade de San Jose State com o propósito de trazer um olhar cultural para a prática docente. A educadora Nancy Markowitz, fundadora da instituição, afirma que durante muito tempo a discussão socioemocional nos Estados Unidos ignorou o contexto cultural e racial. Hoje, como um projeto autônomo, a ONG (Organização Não Governamental) oferece cursos de formação destinados trazer esse trabalho reflexivo para dentro das universidades e também de secretarias de ensino.

Para isso, o centro desenvolveu um modelo de “competências-âncora”, que Nancy compara ao uso de lentes que permitem ao professor enxergar suas capacidades e desenvolvê-las de maneira contínua e adaptada às necessidades de sua sala de aula. A fundadora do CRTWC explica que a abordagem tenta conscientizar o professor de que o lado socioemocional, as questões relacionadas a traumas ou a prática de meditação não devem ser tratadas de forma isolada. “Nosso modelo reúne todas essas questões porque, no final das contas, mindfulness (técnica de atenção plena) é parte da autorreflexão, que por sua vez está ligada a uma de nossas competências-âncora. E essa é uma questão que tanto os alunos quanto os professores precisam trabalhar”, afirma.

Professores podem ter contato com as intervenções do CRTWC tanto na fase de formação inicial, quando estão no período de residência pedagógica, como quando já estão de fato estabelecidos em sala de aula. Na Califórnia, por exemplo, o centro oferece formação para líderes pedagógicos, que atuam como multiplicadores em suas secretarias.

Quando os professores ainda estão ligados a um curso de formação inicial, o programa chega a durar um ano. Nestes casos, o desenvolvimento da “lente” fica mais claro, segundo Nancy. “Não é um curso socioemocional, mas algo que apoia o professor no momento da aula de matemática, de alfabetização ou na hora da gestão de sala de aula”. No entanto, segundo a educadora, mesmo para aqueles profissionais com anos de sala de aula, a abordagem faz a diferença, desde que exista a abertura ao novo e a tão falada mentalidade de crescimento. “Conheço professores que estavam à beira da aposentadoria por causa de esgotamento psicológico e que passaram a assumir um papel de liderança”, conclui.

Também na Califórnia, o Greater Good Science Center, na Universidade de Berkeley, é uma instituição dedicada ao estudo da psicologia, da sociologia e da neurociência para o bem-estar. Durante o verão nos Estados Unidos (menos em época de pandemia, quando os encontros passaram a ser online), o centro reúne educadores para um curso de curta duração em que aprendem a questionar suas próprias crenças, valores e práticas sobre bem-estar, tanto no nível pessoal quanto no contato com os alunos.

A partir desse momento, esses profissionais aprendem como integrar evidências científicas e novos processos para o dia a dia de suas escolas, desde o relacionamento entre funcionários, ao clima escolar e o processo de aprendizagem. Em conversa com o Porvir, a diretora de educação Vicki Zakrzewski explicou um pouco das ideias que movem o Greater Good Science Center, criado pelo professor de psicologia Dacher Keltner.

“O professor Keltner defende que os seres humanos têm uma capacidade inata de bondade, compaixão e cooperação, mas existe uma crença de que somos egoístas, gananciosos e desconectados. Keltner sabe disso, mas entende que o lado compassivo é mais forte que o outro”, disse Vicki, que em seguida faz uma série de questionamentos.

E se pudermos reconstruir nossas instituições com essa premissa de que todos temos a capacidade de sermos gentis, cooperar e estabelecer conexões?

“Diante disso, partimos de como nos vemos como seres humanos. Se temos esses dois lados, como podemos adaptar nossas escolas? E se pudermos reconstruir nossas instituições com essa premissa de que todos temos a capacidade de sermos gentis, cooperar e estabelecer conexões? Como as escolas poderiam mudar o mundo?”.

*Originalmente publicado no porvir.org

por Maria Victória Oliveira / Vinícius de Oliveira

A culpa não é do online

Contradições na educação evidenciadas pela crise atual

José Moran
Educador e designer de ecossistemas inovadores na Educação
Blog Educação Transformadora

Tenho participado de discussões e ouvido críticas ao ambiente online como espaço inadequado
para ensinar e aprender. Muitos professores estão estressados e muitos estudantes continuam
insatisfeitos. Há uma nostalgia – em muitos – pela volta para o espaço seguro da sala de aula,
que garante a aprendizagem plena, enquanto o online seria um espaço precário, incompleto,
provisório.

O problema não está em aprendermos ou não em plataformas online. O que está revelando
este período é que a maior parte das escolas vem ensinando de uma forma inadequada, muito
conteudista, dependente do professor, com pouco envolvimento, participação e criatividade
dos estudantes.

O problema não está no online; está na falta de autonomia na formação de cada estudante, na
deficiência de domínio das competências básicas (saber pesquisar, analisar, avaliar…) e também
na gestão paternalística das aulas, da forma de ensinar: Tudo é dado pronto, como receita
fechada, prato feito, com pouca autonomia, participação e envolvimento dos aprendizes.

O online não é solução nem problema, é um ambiente que permite tanto a transmissão como a
experimentação, com algumas adaptações. Escolas e universidades que estimulam o
protagonismo do aluno, que trabalham com desafios se adaptaram rapidamente ao online,
incentivando o aluno-pesquisador, a personalização, atividades em grupo. Mas professores que
privilegiam a transmissão de conteúdo, tornam o processo cansativo, insuportável e pouco
produtivo para todos. O problema não está no online, está em privilegiar a transmissão de
informações longas, quando é possível combinar informações curtas, atraentes com desafios,
projetos, criatividade. Escolas e docentes que vinham trabalhando com desafios,
experimentação e projetos no presencial tem encontrado plataformas e aplicativos digitais que
combinam os itinerários pessoais (com flexibilidade de tempos e escolhas), as atividades
diversificadas em grupo e as de compartilhamento síncrono entre todos.

Encontramos também problemas no online. Os laboratórios virtuais 3-D e com realidade
aumentada trazem soluções muito poderosas para simulação, imersão, aprendizagem
compartilhada a distância, a um custo baixo, mas que precisam ser complementadas com
experimentações de campo, com contato físico em muitos campos profissionais para uma
efetiva calibração do desenvolvimento de cada um. Não basta realizar somente exercícios em
simuladores de voos; o estudante precisa também de voos reais com instrutores.
Por outro lado, este período longo de ida forçada para o digital revelou que podemos aprender
e ensinar de forma muito ativa, diversificada, personalizada, misturada. As crianças precisam
conviver juntas, com tutoria próxima. Mas quem já tem um domínio básico da língua, da escrita,
da linguagem dos números e computacional pode aprender com um design curricular mais
flexível, personalizado, que equilibre as diversas formas de presença física e digital; espaços,
tempos e múltiplas formas de aprender e de avaliação para desenvolver as competências
necessárias hoje como autonomia, colaboração, resiliência e criatividade.

Este período escancarou também a extrema desigualdade de acesso ao digital e de condições
de estudo e pesquisa na maioria das residências. Reforçou a necessidade de termos uma política
pública que agilize a infraestrutura digital nas escolas, a formação docente em competências
digitais e que o acesso individual e familiar à Internet seja considerado um direito fundamental
do século XXI como ter água, esgoto e energia. Ensinar e aprender hoje sem o digital é privar os
estudantes de oportunidades ricas para vivenciar dimensões importantes para sua vida pessoal,
profissional e social.

É urgente agora o compartilhamento e análise de como integrar todos os ambientes,
estratégias de ensino e aprendizagem de forma otimizada em cada etapa da aprendizagem e
de acordo com as necessidades de cada um, de cada escola, região. O digital não é uma panaceia,
mas um componente fundamental da vida moderna, que afeta todas as dimensões da nossa
existência (trabalho remoto, compras online, inserção em redes e comunidades de interesse e
de práticas…).

A partir de agora os modelos híbridos se tornarão muito mais fortes, com maior integração entre
a presença física e a digital, momentos síncronos e assíncronos. Precisamos ampliar a discussão
e divulgação das formas de visibilizar a aprendizagem também nos espaços digitais, com as
possibilidades que as plataformas oferecem – principalmente os e-portfólios- de registro,
compartilhamento, observação da avaliação de cada estudante, avaliação entre pares e
autoavaliação. A inteligência artificial começa a contribuir para conhecer as características de
como cada estudante aprende, ajudar no desenho de itinerários formativos e sugerir
alternativas personalizadas.

São muitos os desafios na educação, em ambientes presenciais e digitais, num cenário tão
complexo e carregado de incertezas. É prioritário dar ênfase e vivenciar valores humanos
fundamentais. Educadores, gestores, estudantes e famílias precisam insistir em construir
relações inclusivas, de afeto, de conhecimento, abertas ao diálogo, a partir de questões reais,
de experimentação, pesquisa, de projetos socialmente relevantes onde os estudantes sejam
protagonistas e utilizem todos os meios e tecnologias possíveis.

Temos que rever o currículo neste período, com maior autonomia docente e intenso
compartilhamento de experiências, dificuldades, formas de engajar os estudantes através das
diversas plataformas e aplicativos digitais, mas também da criatividade em chegar aos mais
carentes com roteiros ativos e criativos impressos, sonoros e audiovisuais adequados para cada
necessidade.

Num horizonte de crises em todos os campos, que tendem a se agravar, é de capital importância
que educadores e gestores sejam os impulsionadores da esperança, de valores humanos, de
caminhos que inspirem projetos relevantes. Todo o conteúdo precisa ser relevante, ligado à
vida, trabalhado em relação estreita com atividades criativas e empreendedoras. Vai ficando
cada vez mais evidente que podemos aprender de múltiplas formas, em todos os espaços e em
tempos diferentes.

Precisamos avançar rapidamente no redesenho de projetos educacionais que sejam flexíveis, de
qualidade, de custo menor e de resultados mais rápidos e ágeis. Ao mesmo tempo que fazemos
as mudanças possíveis agora, neste período de transição, é importante definir um projeto
estratégico de transformação no médio prazo das escolas e instituições de ensino superior para
que realmente sejam modernas, atraentes, envolvente e relevantes nos próximos anos.

A construção de cidadãos que fazem

A construção de cidadãos que fazem

A educação integral, a cultura maker e o empreendedorismo desenvolvem competências para viver em um mundo exponencial, complexo e incerto

 

Por Fabio Zsigmond-

O termo “empreendedorismo” costuma trazer à mente a imagem daqueles seres fora do comum que usam suas ideias geniais para fundar startups. Em sua etimologia, entretanto, o sentido é mais amplo: vem do francês entreprendre, ou “realizar”; e do sânscrito Antha Prerna, que pode ser traduzido por “auto realização”. Quando um indivíduo era chamado de empreendedor, significava que era percebido como alguém que assumia a responsabilidade de buscar uma meta que lhe traria auto realização. Foi somente no século 17 que o termo foi utilizado no sentido econômico que carrega atualmente.

Sempre tive afinidade com o entendimento mais abrangente de empreendedorismo. Empreender é transformar ideias em realidade. Nossa vida é um empreendimento constante. Porém, nessa jornada percebemos que não estamos sozinhos no mundo, e que precisamos aprender a nos relacionar com três dimensões a nossa volta: com os outros, com o mundo e a natureza, e por fim, com nós mesmos. Para responder a essa demanda vejo como premente a adoção da Educação Integral em nossas sociedades. E o que seria Educação Integral? Segundo o Centro de Referência de Educação Integral,  é “uma concepção que compreende que a educação deve garantir o desenvolvimento dos sujeitos em todas as suas dimensões – intelectual, física, emocional, social e cultural – e se constituir como projeto coletivo, compartilhado por crianças, jovens, famílias, educadores, gestores e comunidades locais”

Recentemente pensadores de variados backgrounds publicaram trabalhos que abordam esse olhar tríplice, que considero a base da Educação Integral, entre eles Patrick Paul (Formação do Sujeito e Transdisciplinaridade), Peter Senge e Daniel Goleman (O Foco Triplo, uma nova abordagem para a educação) e Satish Kumar (Solo, Alma e Sociedade).

Aprendendo a fazer

Existe uma relação direta entre o conceito amplo do empreendedorismo e a chamada cultura maker. Para além de robótica, programação, impressoras 3D

e máquinas de corte a laser, o “make” está relacionado ao “fazer”.  O maker é quem põe a mão na massa. Mas ele não faz, simplesmente, de qualquer jeito, e sim com uma atitude.

E qual seria essa atitude? O maker é curioso, resiliente, experimentador.  Explora possibilidades, erra e aprende com os erros. Diverte-se fazendo e gosta de compartilhar suas descobertas. Olha um problema e é capaz de elaborar um projeto criativo e colaborativo para resolvê-lo. E, fundamentalmente, é apaixonado pelo que faz. Essas características são muito presentes em todos nós quando vivemos a nossa infância, porém só alguns conseguem mantê-las na idade adulta.

Pesquisadores e cientistas perceberam a potencialidade dessa forma de comportamento e contribuíram para trazê-la para a educação. Entre eles estão John Dewey, Seymour Papert e Mitch Resnick.  Este último desenvolveu o conceito de Aprendizagem Criativa, a partir das ideias de Frederick Froebel, o criador do Jardim da Infância, e das descobertas de Dewey e Papert em relação ao que potencializa a aprendizagem, como o papel do fazer e a importância do contexto e do sentido da atividade proposta para o aluno. A Aprendizagem Criativa é uma  filosofia de educação baseada em quatro pilares (4Ps): Projects, Passion, Peer Learning e Play. Trata-se de uma prática pedagógica baseada em projetos (Projects), em que os alunos são movidos pelo que tem significado para eles (Passion), trabalham de forma colaborativa (Peer Learning) e  são valorizados por competências como curiosidade, criatividade e resiliência (Play).

A introdução de práticas ligadas à Educação Integral e Aprendizagem Criativa na educação abre caminho para encontramos a solução para os problemas cada vez mais complexos que enfrentaremos. A população mundial levou 200 mil anos para chegar a um bilhão de pessoas, e somente 200 anos para ir de um para sete bilhões. Crescem exponencialmente também a produção de CO2, a utilização de água, o desmatamento de florestas e a extinção das espécies (veja gráfico). Vivemos ainda uma época extremamente complexa e incerta, com uma profusão de informações difíceis de serem claramente interligadas. A ubiquidade do uso de tecnologias digitais permitiu o surgimento de um repositório gigantesco de dados, que se transformou no objeto de maior valor que temos hoje em dia, concentrado em praticamente cinco organizações: Facebook, Amazon, Apple, Netflix, Google, e um governo, o Chinês.

Quais competências e qualificações nos habilitam a compreender e atuar neste contexto? Não é muito difícil perceber que sem saber o que chamamos de Ciência dos Dados e Programação de Computadores, ficaremos à margem do núcleo que decidirá os rumos da humanidade. Mas isso não basta. Iremos precisar de cidadãos empreendedores, acostumados com a cultura maker. Guiados pela ética e com habilidades tais como colaboração, criatividade e autoconhecimento, terão a capacidade de pensar criticamente e trazer suas ideias para a realidade, contribuindo para a construção de um mundo mais justo, sustentável e confortável.

Novas propostas

Já temos escolas e universidades no Brasil e no mundo que praticam uma educação que responde aos desafios da exponencialidade, da complexidade e da incerteza. São propostas de uma Educação Integral fundamentada em valores éticos, cultura maker e na postura empreendedora. Como exemplos de ensino básico poderia citar o Projeto Âncora em Cotia, na Grande São Paulo, a Glashan Public School em Ottawa, no Canadá , e a Green School em Bali, na Indonésia, cada uma com sua particularidade e respeito às características de sua comunidade. No ensino superior, eu citaria os cursos de engenharia do Insper e o de medicina do Hospital Israelita Albert Einsten, em que os alunos são colocados, desde o início, em contato com questões reais e precisam mobilizar diversas dimensões e conhecimentos para abordá-los e resolvê-los.

Não é por acaso que, dentre os 10 professores finalistas do “Global Teacher Prize” de 2019 – o   equivalente ao prêmio Nobel da educação –, tivemos a brasileira Debora Garofalo, que utiliza a Aprendizagem Criativa no projeto Robótica com Sucata em uma escola pública de SP; e que um dos filmes de maior sucesso este ano no Netflix, “O Menino que Descobriu o Vento”, conta a história, baseada em fatos reais, de um jovem que vive no Malawi em condições de seca e pobreza e que criou uma solução criativa para resolver o problema de falta de água para a  agricultura de seu vilarejo.  

O mundo está mudando rapidamente e as fórmulas antigas não resolvem mais as complexas equações do nosso tempo. Para preparar nossos jovens e também para nos mantermos vivos e atuantes, precisamos buscar propostas de educação que levem em consideração a velocidade, a complexidade e incertezas do mundo. Além de ensinarem as tecnologias, essas novas propostas devem reconhecer que somos seres humanos, que estamos no centro do nosso processo de aprendizagem e que temos também uma natureza tríplice, o que nos leva a ter que aprender a nos relacionar com nós mesmos, com os outros e a sociedade em geral, e com o mundo, a natureza e seus sistemas.

Temos dentro de nós, e também ao nosso redor, recursos para criar coletivamente  soluções para os problemas que se colocam à nossa frente.  Sejamos ousados e deixemo-nos abrir ao novo, permitindo que, na relação entre nossa experiência e o contato com o novo e desconhecido, encontremos caminhos criativos.

Fabio Zsigmond > CEO do MundoMaker Educação> fabio@mundomaker.cc

Para saber mais:

Zsigond, F. Educação 4.0, como ir da teoria a prática, 2019. Disponível  em: https://www.youtube.com/watch?v=2riq9uIHf5U&t=2362s

Tony Wagner e  Robert A. Compton. Creating Innovators: The Making of Young People Who Will Change the World. New York: Scribner, 2012

Edward P. Clapp , Jessica Ross, Jennifer O. Ryan e  Shari Tishman. Maker-Centered Learning, empowering young people to shape their worlds. Hoboken, NJ: John Wiley & Sons, 2017

Sylvia Libow Martinez e Gary S. Stager. Invent to Learn: Making, Tinkering, and Engeneering in the Classroom. Torrence, California: Constructing Modern Knoledge Press, 2019

Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa, Site Aprendizagem Criativa. Disponível em: www.aprendizagemcriativa.org

Site: www.mundomaker.cc/referencias

ARTE (Para entender melhor escala de construção do gráfico, veja: https://endofcapitalism.files.wordpress.com/2008/10/exponent.jpg

A escola Indiana onde ensinar ‘felicidade’ é mais importante que matemática

Montagem 3D de um pátio da escola, com alunos andando e brincando uniformizados

Boas vidas com grandes realizações são construídas sobre felicidade pessoal e inteligência emocional, duas coisas negligenciadas pela educação tradicional. Pelo menos é o que pensam os idealizadores da Riverbend School, uma escola na Índia que pretende formar alunos felizes e aptos para melhorar o mundo.

O projeto é de Vivek Reddy e Kiran Reddy, que têm experiência no empreendedorismo e agora buscam levar novos conceitos para a educação. As palavras de Kiran sobre a escola são profundas:

“Penso que, num ponto de vista ocidental, você tende a acreditar que o ambiente controla sua felicidade. Logo, você tenta controlar seu ambiente. Numa filosofia oriental, você tende a acreditar que você controla a felicidade através de sua mente – no modo como percebe as coisas -, então é possível desconectar o ambiente de sua felicidade. Idealmente, é isso que queremos ensinar às crianças”, declarou.

Na Riverbend, em vez de seguir um currículo tradicional, os próprios alunos poderão decidir o que querem aprender. “O dia pode começar com meditação ou basquete, seguido por uma manhã reprogramando um software ou recitando poemas clássicos indianos, um almoço com os amigos e uma tarde trabalhando numa incubadora de negócios dentro do campus”, dizem os idealizadores.

Os educadores vão focar na mentoria dos estudantes, ajudando-os a aprender a pensar de forma independente. O objetivo é ensinar a aprender sobre os assuntos que interessam a cada aluno, e depois integrando esse conhecimento a uma gama mais vasta de matérias.

“Se você pensa em escolas tradicionais, a prioridade é a aquisição de conhecimento – encher a cabeça das crianças com informação, depois habilidades, e, com sorte, talvez sua escola se importe com a personalidade, o caráter e o tipo de pessoa que você é”, diz Danish Kurani, responsável pelo projeto arquitetônico da escola.

“Eles me disseram que querem inverter o modelo”, conta ao explicar a proposta de Vivek e Kiran. “Vamos focar primeiro e principalmente no caráter dos estudantes e em sua personalidade. Queremos cultivar crianças felizes, pessoas compassivas, que vão sair para o mundo e fazer algo bom”.

O projeto de Kurani é inspirado em um estudo de Harvard sobre a felicidade, que aponta serem as fortes relações interpessoais a chave para a felicidade. Ao pesquisar e descobrir que o formato das aldeias tende a formar relações mais sólidas, ele decidiu fazer com que o campus imitasse uma aldeia.

No centro de tudo fica o espaço de convívio comum, rodeado pelo ambiente acadêmico. No anel exterior ficam os dormitórios (pois os alunos passarão toda a semana na Riverbend) e quadras e jardins para estimular a diversão.

“A escola é centrada em torno de uma praça central pública e tem espaços para estudar, brincar, refletir, viver e plantar. Todo aspecto do projeto encoraja a socialização”, diz Kurani.

Os responsáveis pelo projeto, que começará a ser construído ainda em 2018 e tem previsão de inauguração para 2020, ainda estão trabalhando para resolver o descompasso entre seu modelo e as leis educacionais indianas. Eles entendem que não será uma escola para todos, mas que pelo menos alguns se identificarão com a filosofia.

“As pessoas buscam universidades e carreiras bem sucedidas porque, no fim das contas, querem ser felizes. Pode ser que faça sentido focar nesse objetivo de forma mais direta”, conclui Kiran Reddy.

*Originalmente publicado no Hypeness.

Palestra: Educação Empreendedora – como ir da teoria à prática

Fábio Zsigmond está num palco com um microfone na mão. Atrás dele, sofás e um telão de projeção de mídia. A imagem está escurecida e contém um botão de player de vídeo.

Receber o seu salário mensal 30 vezes em um mês ou receber um centavo e dobrar o valor todo dia por um mês.

O que você prefere?

Assista a palestra que Fábio Zsigmond apresentou no Let’s Go Festival e saiba porque temos que mudar a forma que pensamos a educação para poder lidar com um mundo cada vez mais incerto, complexo e exponencial em que vivemos.

 

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